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O estranho começa a se tornar possível

O estranho começa a se tornar possível

Há não muito tempo, conversar com uma inteligência artificial como se houvesse alguém do outro lado parecia coisa de ficção científica. Controlar uma prótese com o pensamento, implantar dispositivos no cérebro, criar órgãos em laboratório ou desenvolver robôs capazes de circular entre pessoas também.

Algumas dessas coisas ainda são experimentais. Outras já estão acontecendo.

Justamente aí que começa o Vale da Estranheza.

O nome vem de um conceito conhecido da robótica e da computação: uncanny valley, ou vale da estranheza. A ideia, simplificando bastante, é que quanto mais uma máquina se parece conosco, maior tende a ser nossa empatia por ela — até determinado ponto. Quando essa semelhança fica próxima demais do humano, mas ainda há alguma coisa fora do lugar, surge o estranhamento.

Mas quero usar esse vale de uma maneira um pouco diferente por aqui.

Não apenas como o lugar onde robôs quase humanos nos causam desconforto, mas como uma espécie de território imaginário onde colocamos aquilo que ainda parece estranho, distante ou difícil de encaixar naquilo que entendemos como normal.

E esse território está ficando cada vez mais interessante.

Durante quase toda a história da nossa espécie, a evolução foi algo que simplesmente acontecia conosco. Gerações, mutações, seleção, adaptação. Um processo lento demais para ser percebido durante uma única vida.

Agora começamos a interferir diretamente nessa história.

Criamos próteses que ampliam capacidades. Desenvolvemos interfaces entre cérebro e computador. Editamos genes. Pesquisamos formas de retardar o envelhecimento. Construímos sistemas artificiais capazes de escrever, criar imagens, programar, conversar e tomar algumas decisões. Projetamos robôs cada vez mais parecidos conosco.

Em algum momento, uma pergunta aparentemente simples começa a ficar complicada:

onde termina a ferramenta e começa uma extensão de nós mesmos?

Um óculos corrige uma limitação do corpo. Um smartphone amplia nossa memória e nosso acesso à informação. Uma prótese pode devolver um movimento perdido. Uma interface cerebral pode permitir que uma pessoa controle um computador diretamente pelo pensamento.

Existe uma fronteira clara entre essas coisas?

Talvez não, e esse tipo de pergunta que quero explorar aqui.

O Vale da Estranheza será um espaço para conversar sobre evolução humana, inteligência artificial, relação humano-máquina, robótica, interfaces cérebro-computador, transumanismo, aprimoramento humano, consciência, segurança e ética.

Algumas vezes vamos olhar para tecnologias que já existem. Em outras, para pesquisas ainda experimentais. E provavelmente também vamos visitar algumas ideias que hoje parecem ficção científica, mas que talvez estejam apenas esperando tecnologia suficiente para deixar de parecer tão fictícias.

Isso não significa acreditar que todo avanço tecnológico seja desejável.

Também não significa olhar para cada novidade como uma ameaça.

Entre o entusiasmo de quem acredita que a tecnologia resolverá todos os nossos problemas e o medo de quem enxerga nela o começo de uma distopia existe um espaço muito mais interessante.

É nele que quero ficar.

Porque, quando começamos a falar sobre modificar nossos corpos, ampliar nossa inteligência, integrar máquinas ao cérebro ou delegar decisões para sistemas artificiais, as perguntas técnicas rapidamente se tornam perguntas humanas.

Quem terá acesso a essas tecnologias?

O que significa consentimento quando estamos falando de sistemas capazes de interferir diretamente no corpo ou na mente?

Até onde podemos aprimorar uma pessoa antes de começarmos a discutir desigualdade entre humanos biologicamente diferentes?

Quem é responsável quando uma máquina toma uma decisão errada?

Queremos realmente construir tudo aquilo que somos capazes de construir?

E talvez a pergunta mais difícil de todas:

o que continuaremos chamando de humano quando algumas das fronteiras que usamos para definir o humano começarem a desaparecer?

Não tenho respostas prontas para boa parte disso. Na verdade, essa é uma das razões para criar esta página.

Quero usar o Vale da Estranheza como lugar de investigação. Um espaço para descobrir pesquisas, conhecer ideias, entender tecnologias, questionar promessas exageradas, reconhecer riscos reais e, principalmente, conversar sobre as escolhas que talvez precisemos fazer nos próximos anos.

Porque existe uma diferença importante entre imaginar o futuro e perceber que algumas partes dele já chegaram.

E, aos poucos, aquilo que parecia estranho começa a se tornar possível.

Uma boa hora para entrar no vale.